O Brasil e o desenvolvimento como superstição.
Durante muito tempo, reinou no pensamento social a convicção generalizada de que as sociedades se desenvolvem em uma certa direção. De acordo com esse ponto de vista, todos os povos, países, civilizações trilhariam, de modo mais ou menos parecido, o mesmo caminho. Desde a esquerda marxista até a direita neoliberal, os mais diversos pensadores compartilhavam em grande medida essa premissa.
Com o fim do socialismo real, chegou-se mesmo a pensar que esse caminho seria aquele de uma democracia liberal, com larga igualdade de oportunidades e alto nível de renda. Todos os povos se organizariam, cedo ou tarde, sob uma constituição democrática, baseada no livre mercado e capaz de garantir um alto nível de vida. E isso valeria mesmo para aqueles países considerados, hoje, subdesenvolvidos.
Na história do Brasil, não é difícil associar essa concepção de desenvolvimento ao nosso mais dileto mito: aquele segundo o qual somos o “país do futuro”. Desafiado apenas por muito poucos ao longo da história, esse mito parece ter prosperado em terreno fértil na nossa imaginação, até os nossos dias. Na verdade, parece que, nos últimos anos, a velha convicção brasileira acerca de seu brilhante futuro teria encontrado apoio na realidade. Estaríamos deixando de ser o país do futuro, para ser finalmente país do futuro presente.
Se observamos dados, planilhas, gráficos, é verdade que encontramos substanciais melhorias, em diversos setores do país, nos últimos dez ou vinte anos. Sobretudo nos últimos 5 anos, a economia parece estar crescendo de modo sustentado, o que é acompanhado de uma boa novidade: as desigualdades sociais têm sido reduzidas de modo significativo, com um incremento considerável da renda em todos os estratos sociais.
Desde 1997 conseguimos praticamente universalizar o acesso à educação básica. Melhoria salarial, com a implantação do piso nacional; expansão da rede de formação de professores; incremento (que remonta já à década de 1990) da qualidade científica das pós graduações; e uma melhoria gradual das notas do IDEB, que se refletirá no longo prazo em todos os níveis de ensino, todos esses, além de outros fatores passaram a indicar que, se ainda há problemas na qualidade, estamos ao menos – mais uma vez – na “direção certa”.
Na saúde também podem ser vistas melhoras sensíveis. Elas remontam sobretudo à decisão da constituinte de incluir o direito à assistência e prevenção como um direito universal na nossa carta fundamental. E, apesar de todas as deficiências, é sensível a expansão do sistema de assistência, assim como o de prevenção, desde os anos 1990.
Apesar disso tudo, nada parece garantir que o mito do “país do futuro” tenha deixado de ser aquilo que sempre foi: apenas um mito. Não que otimismo seja algo ruim. Esperança, fé e todos esses outros sentimentos e palavras bonitas de que nos falam livros de auto-ajuda e pastores neo-pentecostais podem até mesmo ter algum resultado concreto.
Eles podem às vezes servir como o placebo que ocasiona a cura, mas do qual ela não depende. Ninguém pode ser curado de uma doença grave por meio de placebo. Mas se pode ajudar aquele paciente com boas perspectivas de cura, se a ele é dado um remédio que acredita que funcionará.
Nada garante que encontramos o caminho para nosso futuro glorioso. No Brasil de hoje, nada ainda parece garantir que políticas de distribuição de renda, que o investimento continuado em educação, pesquisa e tecnologia, que o crescimento econômico baseado em redução das desigualdades se tornaram um caminho sem volta.
Não deveríamos cair no erro de pensamos a evolução da sociedade como um processo com um fim determinado, por assim dizer, como uma linha reta na direção de algum lugar, como queria o velho pensamento social.
Em lugar disso, deveríamos pensá-lo, muito mais, como uma trajetória em ziguezague, que depende de uma série de decisões cujas consequências individuais são imprevisíveis e que só têm um resultado se forem acumuladas no tempo. Nada garante, até que venham os resultados, que chegamos ao lugar que imaginamos que chegaríamos, até porque não havia, a princípio, nenhuma garantia de que lá chegaríamos; mais que isso, devemos agir sempre como se não houvesse qualquer “motorista” celestial a nos guiar pela estrada da evolução. O futuro depende do que fizermos, mas tampouco de uma maneira que podemos controlar completamente.
Um bom exemplo concreto de um processo complexo de mudança social poderia ser visto na experiência de introdução do bolsa família nos últimos anos.
Entre nós, prosperou, paradoxalmente, ao lado do mito do “país do futuro”, um outro velho mito: o de que seríamos o “país dos preguiçosos”. Apesar de um trabalhador brasileiro médio trabalhar muito mais tempo do que a média do trabalhador de qualquer país desenvolvido, teimava-se em culpar a “preguiça” brasileira por nosso subdesenvolvimento.
Qualquer tipo de medida que visasse a amenizar o sofrimento dos mais pobres e os de menor ou nenhuma renda era logo vista como assistencialismo e estímulo a esse nosso espírito malandro. Um preconceito que apenas se confirmou quando da introdução do bolsa família.
Enquanto programas muito mais ousados que esse são uma obviedade em países de renda per capita bem maior que o nosso, a primeira reação, entre nós, foi exatamente a esperada. Dizia-se: agora ninguém mais vai querer trabalhar, graças à tal “bolsa-esmola”.
Pois bem, a uma decisão concreta, juntaram-se outras. Os resultados começaram a aparecer e a realidade começou a se modificar. Hoje, o consenso social acerca de tal política, que foi aliás fundamental para o crescimento econômico e para a distribuição de renda nos últimos anos no Brasil, cresceu a tal ponto que apenas muito dificilmente será possível que se volte atrás nesse ponto. Algo que se deixa bem notar no debate público entre os principais candidatos das eleições presidenciais.
Pois bem, o mito do desenvolvimento necessita de uma série de mudanças de consenso parecidas com essa para se realizar. Além claro, de uma série de circunstâncias que independem também desses consensos e da vontade dos implicados.
Mais uma vez, nada garante que o Brasil seja o país do futuro. Mas se o vôo rumo ao futuro é um vôo cego, sem a ajuda de instrumentos ou radares, isso também quer dizer que, ao menos no que depende dos implicados, ou seja, de nós mesmos, ele é determinado por decisões tomadas ao longo do caminho.
Isso não quer dizer que devemos entender grandes mudanças como o resultado de uma decisão tomada por alguém em particular; tampouco como o resultado de eventos singulares. Como dissemos, elas se dão graças a pequenos eventos que se acumulam e transformam, em seu conjunto, a realidade. Eleições como as que realizaremos em dois meses não são capazes de mudar, por si próprias, os rumos de todo um povo. Mas elas podem nos oferecer um instante para pensar, para refletir sobre quais são as (diversas) decisões coletivas e individuais que tomamos e tomaremos.
No caso do Brasil, devemos pensar se já tomamos as decisões que fazem possível nos tornarmos um país em que crescimento econômico e igualdade social são consensos fortes o suficiente para darmos os próximos passos. Devemos pensar, finalmente, se queremos tornar realmente aquilo que sempre foi um (ideal de) futuro presente no nosso presente futuro.