HIGIENÓPOLIS CONTRA A GRAMÁTICA DA GENTE DIFERENCIADA
olá pessoal do PISEAGRAMA! parabéns pela revista e pela excelente idéia de criar esse espaço público virtual.
vou tentar uma primeira "apropriação" compartilhando um comentário que escrevi na semana passada sobre a relação entre a retirada do metrô de Higienópolis e a polêmica com relação aos novos livros didáticos que estão sendo distribuídos pelo MEC. abs!
HIGIENÓPOLIS CONTRA A GRAMÁTICA DA GENTE DIFERENCIADA
Foi uma curiosa coincidência que a polêmica inventada pela mídia nativa em torno da questão dos livros didáticos tenha emergido praticamente ao mesmo tempo que a polêmica em torno da retirada do metrô de Higienópolis. São dois exemplos paradigmáticos do atraso social e moral das elites brasileiras, cujos parâmetros de organização do território e da vida em sociedade ainda são medievais.
A resistência dos pelo menos 3.500 moradores do bairro de Higienópolis que fizeram parte do abaixo-assinado para não receberem uma estação de metrô está obviamente relacionada com a possível popularização do bairro, e consequente desvalorização imobiliária, como nos lembra a urbanista Raquel Rolnik.
O UOL produziu uma matéria [http://twixar.com/M75d3I5INcNl] entrevistando comerciantes e moradores da região e eu fiquei completamente estarrecido com algumas falas, como a de uma senhora que diz achar Higienópolis “um bairro tão mais tradicional” e que “não seria legal vir esse povão, esse monte de gente pra cá”. Uma outra moradora diz que “as pessoas de nível mais baixo ainda não aceitam muito o metrô” (!), tentando deslocar seus próprios preconceitos para uma questão de “educação” do povo.
São falas que dialogam em gênero, número e grau com a reação truculenta dos reacionários de plantão (sempre devidamente representados pela mídia nativa: http://twixar.com/fwW4QMbAPsr) contra a decisão do Ministério da Educação de contemplar as variações linguísticas de nosso idioma nos livros didáticos distribuídos em todo o território nacional.
É sabido até pelo mundo mineral que a realidade do uso da língua ultrapassa em anos-luz as proposições da “norma padrão”, que sempre foi tratada como verdade inquestionável. O que o Ministério da Educação está fazendo é simplesmente reconhecer a língua como um lugar onde a diversidade pode - e deve - ser contemplada. A língua é um território em conflito, e deve permanecer como tal. Não precisa e nem deve ser “pacificada”, da mesma forma que os espaços públicos de nossas cidades devem permanecer abertos para o convívio das diferenças.
Lucas Jerzy [http://ultimobaile.com/?p=3158] faz uma análise interessante: “O que está por trás dessa idéia é a de que os pobres não podem ser autonomizados: não podem ser senhores de sua língua, de seu desejo e de seu deslocamento. ‘Sim, a sociolinguística está certa, mas é melhor ensinar só na Norma Culta’; ‘Sim, a psicanálise está certa, mas aos pobres só devemos dar terapia de grupo’ – isto é: o direito à subjetividade e ao inconsciente segue sendo uma prerrogativa de classe; ‘De bicicleta eles vão andar na contramão porque não conhecem o Código Brasileiro de Trânsito, é mais risco pra todo mundo’ – e claro, deixemos eles dependentes do buzú enquanto nós ficamos dependentes do automóvel”.
Se fossem perguntados sobre a questão dos livros didáticos, alguns moradores de Higieno-pólis provavelmente diriam: “Eu acho a língua portuguesa tão mais tradicional, acho que não seria legal vir esse povão, esse monte de jeitos de dizer pra cá”. Com os mesmos argumentos usados para “proteger” a língua se pavimenta o triunfo feudal dos condomínios fechados sobre a incômoda diver-cidade.